Preocupado com a previdência? Um outro fator deveria te assustar ainda mais


O recente debate sobre a reforma da previdência acirrou várias discussões. Para alguns, a proposta de fixação de uma idade mínima para aposentadoria – 65 anos para homens e 60 anos para mulheres – seria um absurdo. No entanto, uma mudança ocorrida no mercado financeiro no último ano deveria deixar todos os brasileiros de cabelos em pé.

Não é para menos, a alteração a que me refiro, pode causar um de quatro efeitos:

  • quase dobrar o montante necessário para você poupar e ter o mesmo benefício;

  • elevar em mais de 30% o tempo necessário para se aposentar com a mesma renda; ou

  • reduzir em mais de 50% o tempo para usufruir do provento; ou

  • receber uma renda quase 40% menor do que esperava.

Apenas inocentes acreditam que a entidade governo é quem paga a aposentadoria pública. Este benefício é hoje pago pelos trabalhadores da ativa e por todos os brasileiros por meio de impostos. No entanto, com o envelhecimento da população e a maior sobrevida desta, o sistema fica insustentável.

Portanto, é óbvio que você mesmo terá de planejar sua aposentadoria ou pelo menos complementar o pouco que receberá.

Enquanto muitos se preocupam com os detalhes da reforma, poucos se deram conta que as taxas de juros reais (acima da inflação), que possibilitam o crescimento de suas poupanças, caíram a seus mínimos históricos. E a expectativa é que não voltem mais ao patamar anterior.

Nos últimos dois anos, a taxa de juros que remunera os títulos referenciados à inflação de longo prazo (vencimento em 2045) estavam na média de 5,5% ao ano.

Se você for investir nestes títulos agora, vai ter um ganho de apenas 3,8% ao ano acima da inflação. Reforço que esta é a taxa de juros que faz seu dinheiro realmente crescer, pois a remuneração da inflação serve apenas para repor o poder de compra.

A intensidade e velocidade que essa taxa de juros caiu surpreendeu a todos os investidores.

Para entender o efeito desta queda de juros em sua aposentadoria, ilustro com um exemplo. Considerando a taxa de juros de 5,5% ao ano, para ter uma renda mensal de R$ 5 mil por 30 anos, você precisaria poupar mensalmente R$ 725.

Reforço que todos os montantes são a valores de hoje, ou seja, são corrigidos pela inflação. Assim, o mesmo que você compra hoje com R$ 5 mil, poderá comprar em qualquer momento no futuro.

Vamos dividir a simulação em quatro casos que representam as consequências da queda da taxa.

Você vai ter de poupar mais

Com a nova taxa de juros, de 3,8% ao ano, para ter o mesmo benefício, você deverá poupar um valor de R$ 1.252,29.

Portanto, vai precisar revisar seu orçamento e cortar despesas a partir de hoje. O esforço de poupança deve se elevar em mais de 70%.

Você vai ter de poupar por mais tempo

Se você não consegue reduzir gastos para poupar mais, vai ter de poupar por mais tempo. Com a nova taxa de juros, de 3,8% ao ano, para ter o mesmo benefício, o tempo de acumulação de recursos vai subir em mais de 30%.

Portanto, em vez de investir mensalmente por 35 anos, vai passar 46 anos depositando em sua carteira de previdência.

Para um jovem que iniciou sua carreira profissional aos 20 anos de idade, isto significa que ele não vai conseguir se aposentar com menos de 66 anos. Logo, a idade mínima estipulada na reforma de 65 anos não parece tão assustadora.

Você vai usufruir do benefício por menos tempo

Caso você não esteja disposto a esperar onze anos adicionais para se aposentar e não consiga poupar mais, vai ter de contar com o benefício por menos tempo.

Este caso vai afetar não só quem está iniciando sua vida profissional, mas, principalmente, quem já está mais próximo de se aposentar.

Vários investidores quando programaram sua aposentadoria, contaram que o montante guardado renderia uma taxa 50% maior que a atual. Portanto, a situação destes é mais crítica.

Não sobrará muitas alternativas a não ser poupar por mais tempo ou reduzir benefício pretendido, que abordaremos a seguir.

Você vai ter um renda inferior

Na simulação em que não altera nenhuma das condições de acumulação, mas apenas a taxa de juros, o valor do benefício na aposentadoria pode ser quase 50% menor.

Como mencionado anteriormente, esta é a situação daqueles que estão para se aposentar, pois o plano não considerava esta condição de taxas tão baixas.

Mesmo que tenha acumulado o patrimônio com taxas de juros mais elevadas, o fato de os juros serem quase 30% menores reduzirá a renda em cerca de 20%. Portanto, comprometendo qualquer orçamento que tenha sido planejado.

Em qualquer das situações acima, o efeito da queda de taxas de juros reais ocorrida neste ano, promoverá uma consequência mais significativa que a reforma da previdência em sua versão mais rigorosa.

Outra consequência desta queda da taxa de juros será a maior relevância na seleção da carteira de investimentos de forma a recompor parte dos ganhos perdidos. Esta recomposição passa por incorporar os riscos de mercado e de crédito. Portanto, os brasileiros terão de se acostumar com as consequências destes riscos nos seus portfólios.

Michael Viriato é professor de finanças do Insper e sócio fundador da Casa do Investidor.

Folha de SP

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