Banco que 'inventou' Brics fecha fundo que investia no grupo


Os Brics (o acrônimo que representa Brasil, Rússia, Índia e China) chegaram ao fim. Esta é ao menos a decisão de um dos seus fervorosos apoiadores, o banco americano Goldman Sachs, que durante mais de uma década promoveu os investimentos no grupo de emergentes.

Depois de anos de perdas, a instituição se afastou discretamente do conceito, fundindo o seu fundo especializado nos Brics a um mais amplo abarcando todos os mercados emergentes.

Os ativos sob administração do Goldman Sachs haviam caído a apenas US$ 100 milhões (um grupo que em abril incluía papéis de empresas brasileiras como Ambev e BB Seguridade), de um pico de mais de US$ 800 milhões no fim de 2010.

Ao fechar o fundo, o banco de Wall Street sinalizou o fim da era na qual as quatro economias em desenvolvimento –a África do Sul foi incluída posteriormente nas reuniões de cúpula do grupo, mas não integrava o fundo do Goldman Sachs– pareciam estar dando forma a uma nova ordem mundial.

Simon Dawson - 22.jun.2012/Bloomberg

Jim O'Neill, ex-economista-chefe do Goldman Sachs e criador do acrônimo Bric

O acrônimo foi cunhado em 2001 por Jim O'Neill, secretário do Tesouro britânico e antigo economista-chefe do Goldman Sachs, que apontou que o crescimento do PIB real do quarteto havia ultrapassado o das economias maduras do G7 (que reúne sete das maiores economias globais).

O fundo Bric do Goldman Sachs nasceu cinco anos depois e investia ao menos 80% de seus ativos líquidos em ações dos países do grupo.

Mas os mercados de ações se mantiveram muito voláteis, especialmente a partir de 2008, com a crise global e seu impacto no preço das commodities, e a tão alardeada transferência de poder econômico e político ainda não se materializou.

O acrônimo gerou uma série de conferências de cúpula (incluindo os sul-africanos, que se tornaram o quinto integrante a partir de 2010), um banco de desenvolvimento e um fundo de resgate de US$ 100 bilhões, mas continua travando uma disputa para ter maior representatividade em órgãos como FMI e Banco Mundial, que permanecem com o modelo dos anos 40, sendo comandados respectivamente por europeus e americanos.

RETORNO DO FUNDO BRIC ANTE O ANO ANTERIOR, EM % -

A economia brasileira deve encolher em 3% neste ano, de acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), enquanto a Rússia –que enfrenta um colapso nos preços dos recursos naturais e o efeito das sanções internacionais devido ao conflito com a Ucrânia– deve sofrer contração de 3,8%.

Ambos os países perderam neste ano o grau de investimento (selo de bom pagador) concedido pela agência de classificação de risco Standard & Poor's e que foi uma das conquistas das duas nações no período de ascensão dos Brics.

Crescimento do PIB em 2007, EM % -

CHINA E ÍNDIA

Enquanto isso, embora a China continue a divulgar números econômicos fortes, muita gente duvida dos indicadores, imaginando como é que uma economia que viu redução de quase 20% nas importações nos últimos dois meses pode realmente estar crescendo em ritmo anualizado de 7%.

A Índia continua a ser um relativo porto seguro, a caminho de um crescimento semelhante aos 7,3% de 2014, mas também viveu período de turbulência recente, com inflação alta e expansão do PIB perto dos 5% –fraco para o padrão da última década.

Crescimento do PIB em 2010, EM % - África do Sul entra no grupo, que passa a se chamar Brics

FORÇA GEOPOLÍTICA

O grupo de países continua determinado a se impor como força geopolítica distinta. Em 2012, na quarta conferência de cúpula dos Brics, na Índia, o grupo revelou planos para estabelecer um banco de desenvolvimento que rivalizaria com o Banco Mundial e o FMI, dominados pela Europa e Estados Unidos, e no ano passado, em conferência de cúpula no Brasil, defendeu a ideia de um fundo de reserva para aliviar as pressões sobre a balança de pagamentos.

Mas em estudo "Os Brics Ainda Importam?", publicado no ano passado, estudiosos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais argumentam que os "conflitos de interesses" e "diferenças políticas, sociais e culturais indisputáveis" dos membros provavelmente impediriam que o bloco traduzisse seu peso econômico em forma de poder político coletivo no cenário mundial.

A participação dos grupos no PIB (Produto Interno Bruto) mundial, que era de 8,5% em 2001, quase triplicou a sua fatia, que deve chegar a 23% neste ano, de acordo com estimativa do FMI.

"O grupo continua a ser primariamente retórico, e não concreto", escreveu Carl Meacham, diretor do programa das Américas no centro de estudos, sediado em Washington. "E a falta de realizações tangíveis é um mau presságio para a sobrevivência do grupo em longo prazo."

Fonte: Folha de SP

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