• juliana9986

Liberar bermuda é só o começo da transformação digital, diz presidente da Oracle no Brasil

Nas reuniões de Rodrigo Galvão, 36, presidente da Oracle no Brasil, com clientes antes da pandemia, o pensamento predominante era de que o mundo digital nunca venceria o físico.

Quinze meses depois, ele diz que gestores, antes resistentes, estão 100% abertos para a migração rumo à nuvem (o que significa, muitas vezes, o abandono total de estruturas físicas como data centers) — e que a cultura corporativa das empresas, aos poucos, vai acompanhar essas transformações.


"Nos últimos 12 meses, as empresas correram uns cinco anos em processos reais de mudança", diz Rodrigo Galvão


"As empresas perceberam que o mundo híbrido vai existir. Daqui para frente, o mundo vai ser híbrido", afirma Galvão, referindo-se tanto ao modo de trabalhar como à própria estrutura das organizações.

A Oracle registrou aumento expressivo de receita com o disparo da demanda por serviços em nuvem, de grandes companhias de telecomunicações e mídia, como TIM e Globo, como de startups, que migraram as operações para essa modalidade.

Para o executivo, a mudança estrutural para o digital vai exigir uma "transformação humana".


"De sete anos para cá, começamos a sentir esse negócio de transformação digital. O pessoal percebeu que isso demandava uma cultura diferente. Muitos se confundiram, acharam que era só mandar o pessoal ir de bermuda, mas não é isso que muda cultura", diz.


Para ele, o caminho para essa adaptação envolve uma liderança de coparticipação, com liberdade para que funcionários testem outras áreas de atuação e proponham projetos à empresa, novos modelos de contratação, com entrevistas às cegas e programas de inclusão e capacitação, e a manutenção do clima de startup, com sala de chefe aberta aos funcionários, por exemplo.



A pandemia acelerou a digitalização de muitas companhias, isso passou pela contratação de mais serviço de nuvem? Nosso crescimento de plataforma de nuvem cresceu mais de três dígitos. Instituições que, no passado, não se viam em um mundo de cloud pública, hoje migram todos os projetos para a nuvem. Empresas que há 15 meses não tinham esse tipo de conversa, hoje estão 100% abertas.

Quando a empresa presta serviço pela nuvem, consegue crescer ou diminuir sua capacidade de processamento conforme a necessidade. Não tem mais aquele ativo de full capacity parado para atender a uma demanda que nunca sabe se vai chegar. Diminuindo o custo com o prédio que mantém o data center até o sistema operacional de aplicação, geramos verba para a empresa transformar custo em receita.


Qual o setor se destacou nessa procura? O de varejo, que foi muito afetado, talvez seja o mais aquecido. Muitos ficaram com 80%, 100% das lojas fechadas, e aí tiveram que fazer a transformação digital de cabo a rabo, desde a infraestrutura para rodar no ambiente de nuvem até a criação de uma plataforma de vendas pela internet. Muitos estavam no tradicional e foram para a nuvem. Só que não adianta migrar se não tiver a aplicação para rodar no mundo digital, ou seja, um canal de entrada do cliente na plataforma.


Muitas empresas estão migrando 100% da operação para a nuvem. O que isso significa na prática? Recentemente, fizemos talvez um dos maiores projetos da América Latina nesse sentido, o de migração de 100% dos data centers da Tim para nuvem, em uma parceria com a Microsoft. Para rodar uma empresa de telecomunicações, por exemplo, é preciso um prédio, talvez dois ou três, com ambiente 100% preparado para receber máquinas, redes de cabeamento e fibra que fazem a interconexão do data center. Quando um cliente entra no site da empresa ou compra um item pelo aplicativo, cada chamado busca a informação no data center. Quando o sistema migra para a nuvem, a empresa não tem mais aquele espaço físico, pode vendê-lo. A estrutura inteira vai para outra empresa, o que reduz custo e aumenta performance.


Esse cenário também vale para pequenas e médias? Aumentou também, porque vimos muitas startups crescerem e entregarem soluções úteis na pandemia, como as de logística, educação, saúde e as fintechs. Aquele conceito de banco que tínhamos no passado recente, por exemplo, já foi por água abaixo. As empresas perceberam que o mundo híbrido vai existir. Daqui para frente, o mundo vai ser híbrido.

Dentro da empresa, discutimos como vai ser isso em relação ao trabalho. Quem quiser ir para empresa trabalhar, vai; quem quiser trabalhar de casa, pode. O que vai mudar é que em uma reunião teremos pessoas de modo presencial e pessoas à distância.


Já trabalhavam com esse modelo antes? Sim. Grande parte dos colaboradores não têm mesa fixa, é chegar e sentar. Nem ramal temos. Honestamente, ainda não é uma cultura tão enraizada. As pessoas pensavam que se trabalhassem de casa não seria muito bom. Mas, agora, todos esses vieses somem. A grande questão é que não existe mudança sem uma transformação de cultura humana muito forte. Trabalhamos com a tecnologia diretamente, e o processo que vivemos nos últimos anos foi de mudança na forma de agir das pessoas.


Que mudanças foram essas? Foram da matriz? Posso falar do Brasil. A Oracle tem espírito de startup, temos autonomia para fazer o que quisermos, no sentido de cultura, de gente. O que se aplica no Brasil não necessariamente se aplica no México e no Chile. Quando assumi a presidência, há quatro anos, e faz 19 anos que estou na Oracle, pensei: conheço bem a empresa, o mercado e a tecnologia, e o que trouxe a gente até aqui não é o que vai nos levar para frente, por mais clichê que pareça. Somos uma empresa focada em venda de produto, e os projetos de migração para nuvem, por exemplo, são serviço. É outro tipo de cabeça.

Nos aproximamos de startups, temos programa de aceleração, estamos próximos do estudante, que é desenvolvedor do presente e do futuro. Há coisas que o dinheiro não compra, posso colocar o dinheiro que for em um sistema de inovação aberta, mas se eu não tiver 2.000 funcionários querendo fazer parte desse ambiente, não funciona.


A contratação em tecnologia é um desafio no Brasil, com muitos profissionais optando por empresas que remuneram melhor no exterior, ainda mais com o trabalho remoto. Também não é diversa. Como as empresas podem contribuir para estimular esses profissionais? Ninguém ensina tecnologia na escola pública, infelizmente, e esse é o emprego do futuro. Alguns dados dizem que o emprego em 2035 vai ter mudado em 85% —e eu acredito nisso. Não necessariamente será preciso saber codificar, mas trabalhar no meio digital, com a cabeça digital, e essa não é uma realidade para todo mundo. A gente precisa gerar oportunidade para as pessoas, isso é inclusão. Temos projetos de capacitação interna e para fora. Por exemplo, será que as melhores cabeças só estão nas melhores universidades? Porque, se for isso, estamos ferrados, porque nas empresas só teremos gente dos mesmos lugares —as que têm capacidade de chegar lá. Então, como fazemos isso? Tiramos a obrigatoriedade de contratação de determinadas universidades e fazemos contratação sem viés, entrevista às cegas. Temos projeto para capacitar jovens à distância, jovens que a gente tenta devolver para o mercado, para nossos clientes, e projeto em que chamamos talentos negros para conhecerem e se conectarem com a empresa.

Essas mudanças geraram impacto financeiro? O resultado é crescimento de trimestre sobre trimestre, é exponencial. As pessoas que vendem estão em sua melhor forma, e isso gera mais contratos, negociação. Acredito na liderança da coparticipação. É a base que leva a gente a um lugar diferente, não é o topo. De sete anos para cá, começamos a sentir esse negócio de transformação digital. O pessoal percebeu que isso demandava uma cultura diferente, e vai demandar cada vez mais. Muitos se confundiram, acharam que era só mandar o pessoal ir de bermuda, mas não é isso que muda cultura. Aqui a gente não tem mais salas, deixa tudo aberto, minha mesa é aberta. Significa que estou dizendo que o funcionário pode vir, sentar e falar sobre o que quiser. Nos últimos 12 meses, as empresas correram uns cinco anos em processos reais de mudança. Diversas vezes, tive reuniões com presidentes de varejistas e lojas e a fala era "o mundo digital nunca vai ganhar do físico''. Esses paradigmas foram todos quebrados.

RAIO-X Rodrigo Galvão, 36, é presidente da Oracle desde 2017. A empresa de tecnologia é a única em que trabalhou, iniciando sua carreira em 2002 como analista financeiro de contratos. Bacharel em administração pela PUC-SP, tem MBA na Universidade de Michigan e na Universidade de Navarra.

Oracle: empresa de tecnologia fundada em 1977 no Vale do Silício, na Califórnia. Hoje, sua sede fica em Austin, no Texas. É uma referência global no gerenciamento de bancos de dados e servidores para diferentes instituições, de empresas a governos, e atua com infraestrutura e aplicações em nuvem. O faturamento global em 2020 foi de US$ 39 bilhões, com 430 mil clientes em 175 países. A subsidiária brasileira existe desde 1988 e tem 1.867 funcionários.

Folha de SP

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