Falam muito da criança, mas licença-maternidade também é essencial para a mãe, diz cofundadora do Nu


Cristina Junqueira precisou trabalhar quando teve a primeira filha e diz que mulher nenhuma merece isso

Na gestação e no nascimento da primogênita, Alice, a empresária Cristina Junqueira, 37, foi obrigada a dividir a maternidade. Na época, trabalhava numa casa alugada para criar uma fintech de futuro ainda incerto, o Nubank.

Não teve licença-maternidade. Cumpriu longas jornadas se revezando entre negociar com investidores e cuidar de um recém-nascido.

O empenho valeu. O Nubank é um sucesso, e a filha cresce bem. Mas seu lado mãe e mulher não tem orgulho. “Me dói, não vou mentir”, diz.

Em janeiro, grávida de 40 semanas, posou para a foto de capa da Forbes do Brasil. O relato de sua trajetória até o posto de vice-presidente do Nubank repercutiu entre mulheres nas redes sociais: “Disseram que dou esperança”.

Agora, ela está em casa, cuidando da segunda filha, Bella, que nasceu em 28 de janeiro.

“Eu queria a chance de viver isso de outro jeito: ter a licença-maternidade e ficar perto da bebê”, afirma.

A carreira na área financeira é competitiva. Em algum momento ter filhos foi um dilema? Quem me conhece desde a adolescência e a faculdade sabe que eu nunca quis ter filhos —olha que coisa maluca. Um pouco porque sempre fui focada na carreira. Não queria nem pensar em outra coisa. Mas porque considerava uma responsabilidade grande. Imaginava cenários e o que podia dar errado —e tanta coisa pode dar errado. Tinha medo de não dar conta.

Quando eu conheci o meu marido, ele já tinha sido casado e tinha dois filhos. Essa nova convivência me fez pensar: peraí, é muito gostoso isso. Mesmo assim, foi um processo demorado. Já estávamos juntos havia nove anos quando eu engravidei da Alice.

Tinha quantos anos? Estava fazendo 32 anos.

Muita coisa mudou? Sim. Quando engravidei, estávamos na casinha. Eu trabalhava muito. Não tinha dinheiro para nada. Era tudo apertado.

Eu lembro de estar com um barrigão, com oito, nove meses, e que já não tinha onde sentar ali. Lembro de tirar o micro-ondas da tomada porque a prioridade era energia para os desenvolvedores, que estavam trabalhando no aplicativo, num novo produto que a gente tinha de lançar.

Tudo estava ocupado —sala, cozinha, quartos. Cheguei a sonhar que entrava na casa, abria a porta do banheiro e tinha dois engenheiros trabalhando lá: um sentado no vaso e o outro no bidê.

Era um período turbulento. A gente tinha acabado de levantar a primeira rodada de investimentos, e eu tinha ido aos Estados Unidos, grávida de sete meses, para falar com investidores. Meu sócio levou papéis para eu assinar na maternidade.

Nesse contexto, quando a Alice nasceu, eu não consegui tirar um tempo para ficar com ela. Contei com a ajuda da minha mãe e da minha sogra, que se revezaram lá em casa para me dar uma força.

Alice nasceu na quarta-feira e, na segunda, eu estava trabalhando com os pontos da cesariana. Foi um período difícil. Eu não tinha equipe. Fazia tudo sozinha. As coisas não podiam parar.

E como você se sentia? Me doía muito, não vou negar. Às vezes, eu tento lembrar o que aconteceu, e não vem. É um período borrado na minha memória. Eu dormia muito pouco. Amamentei a Alice por três meses. Então, eu levantava de manhã, tirava leite com a bomba e ia para o escritório.

Na hora do almoço, ia para casa, tirava leite, amamentava e ia para o escritório. À tarde, voltava do escritório e cuidava dela. Se ela dormia às oito, eu ficava trabalhando até uma, duas, três da manhã. E acordava ela para dar de mamar.

Foram meses da minha vida que, sei lá, vivi uma espécie de experiência fora do corpo. Mas, com isso, fiz questão de criar uma rotina para estar com ela. Nunca tive babá. Era eu com ela, e eu e meu marido nos revezando para cuidar dela. Coloquei a Alice no berçário quando tinha uns quatro meses. Eu levava para o berçário, eu pegava no fim do dia. E até hoje é assim.

E como foi a decisão de ter o segundo filho, com tanto trabalho? Tem um pouco do relógio biológico, que começa apertar. E não é só pela minha idade —tenho 37—, mas pelo meu marido, que é dez anos mais velho. Chegou uma hora em que falamos: se quisermos outro, é agora. E eu queria a chance de viver isso de outro jeito: ter a licença-maternidade e ficar perto da bebê.

De quanto tempo é a licença? Meu plano é ficar os quatro meses, que é considerado, entre aspas, uma licença normal. Mas eu tenho flexibilidade. Posso voltar antes ou depois. Meu plano é tirar esse tempo para focar a família. Não é só cuidar da bebê. Quem tem dois filhos sabe que é preciso fazer a adaptação do primeiro.

Sentiu falta da licença-maternidade e a considera importante? A licença é fundamental para a saúde da mulher. Muita gente pensa apenas em questões como cuidar da criança e da amamentação. São importantes. Mas as pessoas esquecem o quão duro todo esse processo é para a mulher. Às vezes, a recuperação de um parto, mesmo que seja parto normal, é muito difícil.

Tem a questão hormonal, você fica com outro corpo. Pode estar com cicatrizes. Pode ter de tomar remédios. A licença é essencial até para a saúde mental, para você conseguir voltar realmente recuperada, consciente e coerente.

O que eu passei com a minha primeira filha nenhuma mulher deveria passar. Não é algo bonito, nem legal, nem tenho orgulho. É algo que eu tive de fazer —e não me arrependo. Eu não estaria aqui e o Nubank não estaria onde está.

O mundo financeiro é considerado machista. Como é manter uma carreira e ser mãe nesse ambiente? O contexto em que eu opero, desde que a minha filha nasceu, é muito especial. Bem ou mal, eu sou uma das fundadoras do Nubank, uma empresa de tecnologia mais moderna.

Mas eu fui privilegiada. Imagino que, se estivesse trabalhando em outra organização, numa hierarquia, me reportando a um diretor ou a um presidente, eu não teria tido a oportunidade de ajustar tão bem a minha rotina e a minha agenda às das minhas filhas.

Então, respondendo à pergunta, eu trabalhei numa grande instituição financeira e acompanho o mercado. Tem uma mudança acontecendo, mas só há uns dois, três anos. Vai um tempo ainda, principalmente no setor financeiro, para a coisa avançar e a gente ter um ambiente mais igualitário.

A entrevista para a Forbes teve muita repercussão nas redes sociais. Vi mulheres falando que eu dou esperança porque a realidade na maioria das empresas é outra. Muitas são demitidas em até 12 meses após a volta da licença.

Todas as mulheres que eu conheci na época que trabalhava no banco, depois que voltavam da licença, não tinham espaço e acabaram saindo. Todas. Sem exceção.

E como é no Nubank? Mulheres foram promovidas na gravidez e na volta da licença. Os sócios têm cabeças progressistas, orientadas para a diversidade. Está na nossa cultura.

Folha de SP

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