• Sindicato dos Bancários

Recuperação depende da reforma da Previdência, diz presidente do Itaú


SÃO PAULO

Cândido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, diz que a recuperação da economia brasileira está ameaçada caso o próximo presidente da República não aprove uma reforma da Previdência.

“Temos tudo para um crescimento sustentável menos contas públicas em ordem”, afirmou. Ele admite que não é um “assunto fácil para um palanque”, mas aconselha os candidatos a falar mais do “benefício” do que do “remédio”.

Para o chefe do maior banco privado brasileiro, o Brasil precisa investir mais em educação, porque o novo motor do crescimento global será a inovação tecnológica e a cultura do compartilhamento.

Bracher é um dos anfitriões do encontro do Fórum Econômico Mundial, que acontece nesta semana em São Paulo.

Folha - A economia brasileira voltou a crescer depois de uma longa recessão. Essa recuperação é sustentável?

Cândido Bracher - Temos inúmeros fatores positivos que vão sustentar o crescimento. O primeiro é uma situação externa confortável, com déficit em conta corrente baixo, investimento direto estrangeiro expressivo e reservas que são quase 20% do PIB.

Também temos uma inflação baixa com chances de continuar assim por um bom tempo. Os juros caíram bastante e ainda podem cair mais. E temos uma capacidade ociosa de mão de obra acumulada na recessão que hoje favorece o crescimento.

Resumindo: temos tudo para um crescimento sustentável, menos contas públicas em ordem. Existe um desequilíbrio estrutura e crescente. Se a reforma da Previdência não for feita, a sustentabilidade do crescimento está ameaçada.

É um problema sério, mas para o qual existe receita. Diversos países contiveram suas despesas, melhoraram a eficiência na gestão pública e se recuperaram. Não vejo porque o Brasil não possa fazer isso.

O senhor acredita que a reforma da Previdência pode finalmente ser aprovada em 2019? E, se isso não ocorrer, qual será o impacto para a economia?

A reforma da Previdência tem que ser aprovada no ano que vem – mais até por fatores políticos do que econômicos.

O país ter mais um ano com déficit nominal (despesas menos receitas sem descontar a inflação) de 5% a 6% do PIB não é bom, mas não mata, especialmente se o PIB estiver crescendo.

Mas não podemos deixar de aproveitar o primeiro ano de um governo recém eleito para fazer reformas estruturais. A medida que o tempo avança, é mais difícil estabelecer a coalizão de forças necessária no Congresso para mudar a constituição.

E se a reforma não for aprovada? Vamos sofrer. Hoje existe uma expectativa de que vai sair no ano que vem. Se não ocorrer, será que o mercado vai continuar num clima de “me engana que eu gosto”? Vai ficando cada vez mais difícil.

O presidente Michel Temer assumiu com o discurso de que faria uma “ponte para o futuro”, mas trocou a agenda da reforma da Previdência por uma mais popular que é a segurança pública. Decepcionou?

Fiquei frustrado que a reforma da Previdência tenha sido abandonada, mas era preciso ceder à realidade. Honestamente a reforma não seria aprovada num ano de eleições.

Que outras reformas o próximo governo deveria tentar aprovar?

Temos ineficiências na arrecadação de impostos, logo uma reforma tributária é muito importante. Também seria desejável uma reforma processual do sistema judiciário e a própria recuperação judicial precisa ser ajustada. São reformas

importantes para a produtividade, ou seja, para elevar a intensidade do crescimento do Brasil.

Qual deveria ser o perfil do próximo presidente do Brasil para conseguir aprovar as reformas? E, entre os pré-candidatos, quais teriam esse perfil?

O principal elemento que um futuro presidente precisa para aprovar uma reforma é ser popular. E isso é quase algo tautológico: se ele for eleito, será popular.

Outro ponto muito importante é ter a consciência de que falta a estabilidade fiscal para o país crescer. Ainda não sabemos ao certo quem serão os candidatos, mas estão surgindo muitos presidenciáveis com essa preocupação.

Claro que não é um assunto fácil para um palanque. Portanto, é importante falar mais do benefício que do remédio. É preciso mostrar que a sustentabilidade do crescimento econômico depende disso.

A polarização das eleições pode favorecer candidaturas extremistas, seja a direta ou a esquerda?

Certamente isso não seria bom para o país. Acho que o sistema de dois turnos nos protege muito dessas armadilhas dos extremos. Também acredito que existe uma tendência de equilíbrio no eleitor brasileiro. Evidentemente existe um risco de isso ocorrer, mas não atribuo uma grande probabilidade.

O mercado de crédito segue travado, apesar do fim da recessão. Por quê?

O fator limitante de crescimento de crédito hoje ainda é a demanda. O Itaú não criou restrições adicionais e tem interesse em conceder mais crédito. Projetamos um crescimento da carteira entre 4% e 7% este ano.

As carteiras de crédito de pessoas físicas e pequenas e médias empresas vão crescer ainda mais. Nas grandes empresas, o mercado de capitais está muito ativo e tem substituído o financiamento bancário.

As grandes empresas também estão mais receosas, porque os investimentos dependem de um cenário mais seguro. Possivelmente só vão deslanchar após as eleições.

A taxa Selic baixou significativamente, mas os juros cobrados dos consumidores continuam muito altos. Por quê?

A Selic caiu 7,5%, mas, entre outubro de 2016 e hoje, a taxa de crédito pessoal do Itaú caiu 18%. É claro que você pode argumentar que o BC cortou a Selic pela metade, enquanto nossas taxas não recuaram na mesma proporção.

O spread bancário, que é a diferença entre o que o banco paga e cobra pelo dinheiro, tem que remunerar uma série de fatores: custo de captação, inadimplência, impostos, custos administrativos.

A taxa de juros é apenas um dos componentes do custo final do empréstimo. O aluguel das agências e a inadimplência, por exemplo, não caíram pela metade. Dito isso, acredito que as taxas bancárias vão cair mais.

Há alguns anos, vi uma pesquisa que mostrava quais são os fatores que determinam o valor de mercado de um banco. A gestão responde por apenas 5%, enquanto o que tem mais peso é estar no país certo: 65%.

Ou seja, não adianta o banco ir bem num país que não cresce. Anseio por um mundo de taxas baixas no qual a nossa carteira de crédito aumente e a inadimplência recue.

O mercado vem sendo benevolente com o Brasil por conta do cenário internacional positivo. Isso pode mudar?

O Brasil tem méritos, mas realmente está sendo beneficiado por esse ambiente de liquidez. O risco é que uma aceleração súbita da inflação leve os países desenvolvidos a subir os juros, o que atrairia o capital.

Existe uma crença no mercado de que as taxas de juros nos EUA não voltarão ao nível pré-crise de 2008. Naquela época, estavam em torno de 4,5%. Hoje os investidores acreditam que não vai passar de 3,5%.

Enquanto essa percepção permanecer, o valor dos ativos vai se manter. Caso contrário, tendem a cair.

Semanas atrás, houve grande volatilidade porque foram criadas mais vagas de emprego que o esperado nos EUA. O mercado então já faz as contas: se a economia estiver superaquecida e os salários subirem, vai ter mais inflação e os juros terão que subir.

Os países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, aparecem como o novo motor do crescimento global. Como isso afeta o Brasil e a região?

O mundo deve crescer 4% este ano. Os países desenvolvidos devem avançar mais que os emergentes, com exceção da China. É raro uma época com vários países crescendo, inflação e juros baixos. Isso é o motor do crescimento.

Essa situação vai perdurar? Tem gente que diz que a cultura do compartilhamento – por exemplo, Airbnb e Uber - vai trazer um aproveitamento melhor dos recursos, o que permitiria elevar o consumo sem inflação.

Se o crescimento do mundo for movido especialmente pela inovação tecnológica, o Brasil tem que se preocupar muito com educação para não irmos a reboque.

Depois que os Estados Unidos elevou as tarifas de importação do aço e do alumínio, os analistas começaram a temer uma guerra comercial. Existe o risco ou é exagero?

Existe um risco de uma maior imposição de tarifas e o exemplo americano não ajuda. No caso do Brasil, já somos muito protegidos. É uma pena se isso ocorrer, porque o Brasil precisa de mais abertura comercial e mais acordos bilaterais.

A tecnologia está revolucionando o setor financeiro com o surgimento de fintechs e criptmoedas. O senhor está preocupado?

Vejo com certo fascínio essas mudanças tecnológicas. Elas permitirão aos bancos ganhos de produtividade grandes. Já temos visto, por exemplo, como o uso de inteligência artificial melhora os nossos modelos de crédito.

A qualidade dos produtos que podemos oferecer aos clientes também melhora muito com a tecnologia. É possível ser mais ágil, cobrar menos e melhorar a experiência do cliente.

Não é de agora que estamos inovando. A tecnologia não é uma ameaça se a empresa é capaz de evoluir junto com ela e usar a oportunidade para acelerar seu crescimento.

  • Fonte: Folha de SP

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