Sociedade contemporânea gera fracassados e depressivos


Por que é que nos sentimos cada vez mais ocupados e, ao mesmo tempo, menos capazes de perceber o resultado palpável daquilo que fazemos? Trata-se de uma estranha forma de vida em piloto automático: quanto mais mensagens de e-mails você se dedicar a responder, mais mensagens terá para responder de volta no dia seguinte.

Parece haver um sinistro paralelo entre a desmaterialização das coisas sob a égide do capital financeiro e a superocupação improdutiva do nosso cotidiano atual. Afinal, a economia financeira não acrescenta riquezas ao mundo, mas, ao contrário, gera valor especulando-o de forma predatória. Nós, igualmente, internalizamos o trabalho em nosso cotidiano, colonizando os antigos momentos de ócio e de lazer com atividades supostamente produtivas, e matando o tédio criativo com a permanente e ansiosa comunicação de informações pela internet.

Esse é o tema do livro "Sociedade do Cansaço" (Editora Vozes, 2015, 78 págs., R$ 22), de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Segundo Han, vivemos um momento de importante quebra de paradigmas culturais, que vem substituindo os valores de alteridade e de negatividade pela positividade homogeneizadora.

Assim, se o século 20 foi uma era bacteriológica, baseada no paradigma bipolar da imunorreação do eu contra a ameaça infecciosa do outro, as patologias contemporâneas são neuronais (depressão, transtorno de déficit de atenção), causadas por excessos do próprio eu contra si próprio.

Inaugurada pela queda de um muro, a nossa era assiste à abertura desregulamentada do mundo para a promiscuidade da globalização, em que tudo se equaliza.

Igualmente, o paradigma da sociedade disciplinar, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, cede lugar a uma sociedade do desempenho, povoada por academias fitness, torres de escritórios, bancos, aeroportos e shopping centers. Empresários de si mesmos, seus habitantes não são mais sujeitos da obediência, mas do desempenho e da produção movidos pela energia motivacional: "Yes, we can". Incitados à iniciativa pessoal, internalizam a disciplina sob a forma de uma aparente liberdade de ação. Assim, enquanto a antiga sociedade gerava loucos e delinquentes, a atual produz fracassados e depressivos, paralisados por uma sociedade que crê que nada é impossível.

Daí a frequente sensação de nos percebermos em meio a uma bola de neve que cresce sem parar, na qual perdemos o controle das nossas ações. Respondendo sempre a coisas desencadeadas anteriormente, estamos fazendo a roda da vida girar mas sem vislumbrar pontos de chegada, ou momentos luminosos no caminho.

A atenção dispersa, na forma da multitarefa, não é um progresso civilizatório, argumenta Han, e sim um retrocesso, equivalente ao do animal que realiza suas tarefas sempre alerta ao regime da sobrevivência. Frente ao sentimento atual de transitoriedade da vida e do mundo, reagimos com a histeria hiperativa da produção, como uma forma de terapia ocupacional. Mas a pura inquietação gerada pelo excesso de informações e de estímulos é estéril. E, ao diminuir a atenção profunda, ela coloca em xeque o lugar social da cultura e do pensamento, que é também, no plano individual, o lugar da constituição do sujeito.

Gilherme Wisnik

É professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e crítico de arte. Escreve às segundas, quinzenalmente, na Folha de SP.

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