Para reduzir calote, bancos procuram clientes com dívida alta para renegociar


Para evitar que clientes que já estão enroscados no cartão de crédito ou no cheque especial se tornem inadimplentes, os bancos estão se antecipando e oferecem linhas mais baratas, a fim de livrá-los dessas modalidades que têm, de longe, as taxas de juros mais altas do mercado. Essa estratégia de antecipar a renegociação é uma das principais razões para os índices de inadimplência bancária não terem disparado, apesar do aumento do desemprego e da alta da inflação.

Os dados mais recentes do Banco Central (BC) mostram que a taxa de inadimplência (atrasos superiores a 90 dias) chegou a 4,3% em janeiro, um crescimento de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior e de 0,6 ponto em um período de 12 meses. Esse avanço é considerado modesto, dado o o grau de deterioração do ambiente econômico em relação ao início de 2015, que corroeu a capacidade de pagamento dos consumidores.

Raul Francisco Moreira, vice-presidente de Negócios de Varejo do Banco do Brasil, conta que a instituição tem abordado, em média, 2 milhões de correntistas mensalmente com propostas para trocarem as dívidas mais caras por crédito mais barato, o que tem assegurado à instituição manter seus indicadores de calote em um patamar baixo. Em dezembro, era de 2,17% da carteira de crédito para pessoa física, quase metade da média do sistema financeiro para esse público.

— Com base nas informações dos clientes, fazemos uma oferta mais adequada. Vemos aqueles que estão usando o rotativo do cartão ou o especial de forma recorrente. Aí fazemos uma oferta, que pode incluir um crédito pessoal ou consignado — explica.

BB TEM 12 MILHÕES NA MIRA

Buscar alternativas mais em conta faz todo sentido quando se olha com atenção as taxas de juros. No rotativo do cartão de crédito, a taxa média de juros, segundo o BC, chega a estratosféricos 439% ao ano, e, no cheque especial, atinge 292%. Já a taxa média de juros de um crédito pessoal está em 118% ao ano. Recorrendo-se ao consignado, o custo cai para 29,3%.

O BB tem uma base de 60 milhões de clientes, mas o alvo dessa campanha é um grupo de 12 milhões que possuem limites pré-aprovados. A abordagem é feita entre aqueles que evidenciam alguma dificuldade de pagamento. Neste mês, o banco vai lançar um simulador, pelo qual o cliente poderá acompanhar todas as suas dívidas e verificar que opções teria para melhorar essa relação.

— Todo esse trabalho se reflete na nossa taxa de inadimplência da pessoa física, que caiu um pouco — diz Moreira.

O Itaú Unibanco adotou uma estratégia similar, com o Crédito Sob Medida. Por meio desse programa, o cliente pode “juntar” todas as suas dívidas (crédito pessoal, cartão de crédito, cheque especial) e refinanciá-las em um único contrato.

Segundo o banco, a ideia é concentrar esses pagamentos em uma única data, com uma parcela que seja atraente para o cliente, já que o prazo da dívida em geral será alongado, a juros inferiores aos do cartão e do cheque especial. “O volume de contratação de clientes que utilizaram o produto para se reorganizar e evitar o atraso teve um crescimento superior a 20% em janeiro de 2016, quando comparado ao mesmo mês do ano passado”, informou o banco ao GLOBO.

Segundo João Augusto Salles, analista da Lopes & Filho Consultoria, essa estratégia é adequada para o banco. É uma forma de a instituição reter o cliente que tem um bom histórico de pagamento, mas que pode estar enfrentando algum problema devido à atual conjuntura econômica.

— Vale fazer isso para os clientes que possuem um cadastro favorável. Com isso, os bancos reduzem a intensidade da alta da inadimplência. Com certeza, em dezembro de 2016 vamos ter taxas de inadimplência mais altas do que em dezembro do ano passado, mas, com essa estratégia, os bancos mitigam essa alta — diz Salles.

Tito Labarta, analista do Deutsche Bank, avaliou, em relatório a clientes, que a inadimplência será um fator de preocupação para os bancos brasileiros em 2016, mas que a composição das carteiras de crédito, com um mix que vem dando prioridade às linhas de menor risco, deve contribuir para uma alta modesta.

E se a chamada renovação preventiva (a troca da linha de crédito com juros mais altos por opções de custo menor e prazo mais longo) não der certo, os bancos também estão reforçando as suas estruturas de renegociação. A ideia é antecipar o início do período da cobrança e oferecer novos canais.

Para quem já está inadimplente, os bancos criaram canais específicos para renegociar os débitos. O BB tem o “portal da renegociação”, e o Itaú Unibanco, além dos canais tradicionais, como atendimento nas agências e caixas eletrônicos, oferece um chat para o cliente tirar dúvidas sobre a renegociação e fazer uma proposta. O Bradesco criou o Quero Quitar, plataforma eletrônica de negociação de débitos que funciona como um autoatendimento. A ideia é que o cliente informe o que precisa renegociar, receba propostas e faça sua opção.

CLIENTE DEVE PESQUISAR RIVAIS

Para Thiago Alvarez, fundador do Guia Bolso, a abordagem dos bancos, tanto de oferecer opções mais em conta como renegociar a dívida, são válidas e úteis para o cliente. No entanto, é importante pesquisar outras alternativas — se tiver conta em mais de um banco, por exemplo, ver se o concorrente não oferece um crédito com juros mais em conta — e preparar uma contraproposta.

— O objetivo do banco é manter vivo o cliente. Se ele está com dívida no especial ou no rotativo do cartão, é melhor ir para uma dívida mais barata e voltar a ter previsibilidade no orçamento. Mas é importante comparar e negociar — afirma Alvarez.

A taxa média de juros nas renegociações é de 47,1% ao ano.

Fonte: Extra

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